
Comitê de Enfrentamento à Violência de Raça e Gênero
O Comitê de Enfrentamento à Violência de Raça e Gênero é um espaço estratégico criado por diferentes organizações e movimentos que atuam no enfrentamento às violências de gênero e raciais, com o objetivo de fortalecer o acolhimento e a proteção de mulheres negras.
Pensado como um espaço de mobilização e diálogo, o comitê nasce com o compromisso de promover debates, conexões e trocas antes, durante e após a Marcha — fortalecendo o engajamento das mulheres na luta por justiça racial e de gênero. Nosso propósito é construir uma rede coletiva de acolhimento e resistência, capaz de potencializar a proteção, a visibilidade e o empoderamento das mulheres negras.
Conheça o Manifesto
Manifesto do Comitê de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça
Nós, mulheres negras que habitamos e sustentamos os territórios deste país — nos centros, periferias, comunidades tradicionais, favelas, quilombos, margens ribeirinhas, escolas, terreiros, organizações e tantos outros espaços — reafirmamos que o enfrentamento à violência de gênero e raça é parte indissociável da construção de um Brasil comprometido com a vida, a dignidade e o Bem Viver. Nossa luta não nasce de ontem: ela é continuidade das que vieram antes de nós e ponto de partida para as que virão.
Carregamos em nossos corpos a marca de um país que insiste em naturalizar violências múltiplas. Vivemos o racismo e o patriarcado em suas expressões mais cruéis: no feminicídio que atinge principalmente mulheres negras; na violência obstétrica que persiste como herança colonial; na brutalidade estatal que invade nossas casas, criminaliza nossos territórios e ceifa a vida de nossas famílias; no racismo institucional que nos atravessa nos serviços de saúde, assistência, justiça e segurança; nas desigualdades econômicas que nos empurram para a exaustão; e no abandono de territórios que, apesar de negligenciados, seguimos sustentando com memória, solidariedade e saberes ancestrais.
Honramos as que vieram antes de nós — mulheres que abriram caminhos enfrentando a violência com coragem, inteligência e solidariedade, e que, mesmo sem garantias, plantaram as bases de tudo o que hoje reivindicamos. Pedimos licença para nos somar a essa trajetória, fortalecendo as lutas históricas por vida digna, justiça racial e de gênero, autonomia, memória e reparação. Marchamos porque acreditamos na potência de um Brasil que ainda não existe por completo, mas que estamos construindo juntas: um país onde nossas vozes não sejam exceção, onde nossos corpos não sejam alvo, onde nossas meninas possam viver sem medo e sonhar sem limites. Seguimos organizadas, firmes e
enraizadas em uma esperança que não se confunde com espera, mas que se traduz em movimento.
1 – Racismo e sexismo estrutural
O racismo e o sexismo estruturais constituem as bases das desigualdades que atingem de forma desproporcional as mulheres negras no Brasil. Esses sistemas, articulados entre si, limitam o acesso a direitos, oportunidades e políticas públicas, reproduzindo assimetrias históricas que se expressam no trabalho, na educação, na saúde, na segurança, na participação política e na vida cotidiana.
A raiz desse cenário está na própria formação social e econômica do Brasil. A escravização de povos africanos, a violência colonial, o patriarcado como eixo de organização das
relações sociais e a naturalização da desigualdade enquanto prática política consolidaram estruturas que permanecem operantes até hoje. O Estado brasileiro se constituiu mantendo a população negra em posições de subordinação econômica, ausência de direitos, criminalização e exclusão dos espaços de poder.
No contexto contemporâneo, essas heranças se expressam nas principais desigualdades que atravessam a vida das mulheres negras: concentração em trabalhos precarizados, menor remuneração, barreiras para acesso à educação e ascensão profissional, negligência no sistema de saúde, exposição ampliada à todas as formas de violência, além da sub-representação nos espaços de decisão. A ausência de políticas públicas intersetoriais, de mecanismos de proteção adequados e de sistemas de dados com recorte racial e de gênero reforça a permanência desses padrões de desigualdade e dificulta a formulação de respostas efetivas.
Diante dessa realidade, é urgente implementar políticas públicas integradas com orçamento dedicado, metas claras de equidade racial e de gênero e formação continuada em letramento racial e antissexista para profissionais de todas as áreas do Estado. Medidas prioritárias incluem: fortalecimento dos serviços de proteção às mulheres negras; ampliação de creches e políticas do cuidado; ações afirmativas para acesso, permanência e ascensão no mercado de trabalho; protocolos antirracistas nos setores de saúde, educação, assistência, justiça e segurança; e aprimoramento da coleta, análise e transparência de dados. Somente com políticas estruturantes será possível enfrentar desigualdades históricas e promover justiça racial no conjunto das políticas públicas.
2- Direito à vida e à dignidade
Nossos direitos seguem sendo sistematicamente violados no Brasil. Nós, mulheres negras, somos a maioria entre as vítimas de feminicídio – resultado de um padrão persistente de desproteção estatal que nos atinge de forma mais intensa e ampla do que qualquer outro grupo. A ausência de serviços públicos nos territórios periféricos, a negligência das redes de saúde e segurança e o acesso limitado à educação e à moradia digna compõem um cenário que torna a sobrevivência uma luta diária. Além disso, a criminalização do aborto e as barreiras impostas mesmo nos casos previstos em lei ampliam o risco de morte para meninas e mulheres negras, evidenciando como a maternidade compulsória e a falta de cuidado institucional operam como mecanismos de controle sobre nossos corpos.
Garantir o direito à vida e à dignidade exige políticas intersetoriais robustas, com orçamento próprio e mecanismos de fiscalização e responsabilização. É necessário ampliar e fortalecer a rede de proteção às mulheres, com atendimento humanizado e racializado; assegurar o acesso ao aborto legal sem barreiras administrativas, morais ou religiosas; garantir creches, planejamento familiar e políticas de cuidado que permitam autonomia às mães trabalhadoras; estruturar serviços de saúde mental e apoio psicossocial; e
implementar programas de prevenção à violência com presença efetiva do Estado nos territórios, especialmente nas periferias e favelas. Somente com políticas duradouras, territorializadas e centradas na equidade racial e de gênero será possível assegurar que viver seja um direito pleno e inegociável.
3 – Saúde, racismo institucional e violência obstétrica
O sistema de saúde brasileiro segue reproduzindo estereótipos racistas que afetam diretamente a vida e a integridade das mulheres negras. A ideia preconceituosa de que “mulher negra é forte” e “aguenta mais dor” sustenta práticas discriminatórias que naturalizam o sofrimento e a negligência. Esses mitos — herança direta da escravização, quando nossos corpos eram tratados como objetos de exploração — ainda orientam condutas clínicas, resultando em menos analgesia, menos escuta, menos autonomia e mais violência obstétrica. Somos as que mais morrem no parto, as que recebem menos atenção no pré-natal, as que têm suas queixas desqualificadas e têm seus direitos reprodutivos violados.
A falta de acolhimento na rede pública de saúde se expressa também no tempo de espera prolongado, na ausência de informação clara, na realização de procedimentos sem consentimento e na impossibilidade de acessar o aborto legal devido a moralização institucional, objeção de consciência coletiva e exigências indevidas como boletins de ocorrência. A inexistência de canais de denúncia independentes e mecanismos eficazes de responsabilização impede que casos de violência obstétrica e racismo sejam tratados com a gravidade devida, perpetuando um ambiente de impunidade.
Garantir saúde integral para as mulheres negras exige enfrentar essas estruturas de maneira direta e sistêmica. É imprescindível implementar de forma obrigatória a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) em todas as unidades do SUS, com comitês comunitários de monitoramento e indicadores de equidade racial e de gênero. A formação antirracista precisa ser permanente, abrangendo profissionais da atenção básica às maternidades. Protocolos de parto humanizado devem ser fortalecidos, assim como redes de doulas, parteiras e coletivos de mulheres negras que atuam na humanização do cuidado. É fundamental ampliar serviços de saúde mental, criar grupos de apoio e rodas de acolhimento, fortalecer mecanismos de denúncia independentes e responsabilizar instituições e profissionais por práticas racistas. Somente com políticas integradas e territorializadas será possível construir um sistema de saúde comprometido com a vida, a dignidade e os direitos das mulheres negras.
4 – Trabalho, renda e autonomia econômica
As desigualdades econômicas que atingem as mulheres negras não são acidentais, mas sim o resultado de um projeto de desenvolvimento que historicamente nos empurra para o trabalho precarizado, mal remunerado e sem reconhecimento. Somos maioria no trabalho doméstico e informal, enfrentamos maior desemprego, menor remuneração e barreiras explícitas e implícitas à contratação — incluindo o racismo algorítmico presente nas plataformas digitais e nos sistemas de seleção automatizados. A ausência de creches integrais, a precarização da mobilidade urbana e a sobrecarga do cuidado não remunerado limitam nossa capacidade de estudar, circular e acessar oportunidades. Para muitas, a dependência financeira é uma rota forçada para a permanência em relações violentas, tornando a autonomia econômica um fator central para romper ciclos de violência.
As desigualdades são aprofundadas pela falta de políticas públicas que apoiem a chegada e a permanência de mulheres negras em setores de maior rendimento e posições de poder. A oferta de capacitação profissional segue insuficiente, poucas instituições de ensino técnico e superior são acessíveis para quem vive nas periferias, e a fragilidade da proteção trabalhista e previdenciária — especialmente para trabalhadoras informais e para o grande contingente de domésticas que permanecem sem formalização — consolida um
ambiente de exclusão econômica. Sem políticas de salário digno, igualdade salarial e acesso à terra e à moradia, as possibilidades de autonomia permanecem restritas, reforçando padrões históricos de pobreza e vulnerabilização.
É urgente ampliar creches integrais, proteger trabalhadoras, garantir programas de qualificação com bolsas, criar hubs de economia criativa e solidária nos territórios e outras iniciativas que possam assegurar o acesso real à formação. Sem enfrentar o racismo institucional que organiza o mercado e sem investir em políticas públicas que ampliem a
autonomia econômica das mulheres negras, não haverá justiça social nem possibilidade de vida plena.
5 – Justiça, reparação e enfrentamento à violência estatal
A relação entre o Estado brasileiro e as mulheres negras é marcada por práticas de controle, punição e desumanização. A violência policial, o encarceramento em massa e a impunidade sistemática configuram um padrão de violação que retira de nós o direito à vida, à maternidade, à liberdade e à dignidade. Somos nós que enterramos filhos assassinados pelo Estado e que enfrentamos, sozinhas, o despreparo e o racismo das instituições quando buscamos justiça. Somos nós que vivenciamos abordagens violentas, discriminação no acesso às delegacias e à Defensoria Pública, e um sistema jurídico que nos revitimiza ao mesmo tempo em que absolve os agentes do Estado responsáveis por execuções, desaparecimentos e abusos. Essa seletividade penal — que criminaliza territórios, juventudes e maternidades negras — é uma continuidade direta da lógica colonial e patriarcal que historicamente estabeleceu quem deve ser protegido e quem pode ser descartado.
O enfrentamento a essa violência exige medidas estruturais. É urgente reformar profundamente o sistema de justiça e segurança pública, com desmilitarização das polícias, controle social efetivo e responsabilização de agentes envolvidos em violações. A formação antirracista e de gênero deve ser obrigatória para policiais, promotores, juízes, defensores e servidores do sistema prisional, acompanhada de mecanismos de fiscalização independentes. Precisamos de uma política nacional de reparação para mães e familiares de vítimas da violência estatal, com suporte psicossocial, assistência jurídica, memoriais e garantias de não repetição.
Defendemos também o fortalecimento das Defensorias Públicas, Ouvidorias externas, sistemas de prevenção à tortura, transparência total dos dados sobre letalidade policial e políticas de justiça restaurativa que substituam a lógica punitivista. Sem um Estado capaz de reconhecer seu próprio papel como agente violador e assumir a reparação como compromisso público, não haverá justiça, democracia nem vida plena para as mulheres negras e suas comunidades.
6 – Interseccionalidades e grupos em vulnerabilidade
As desigualdades que atingem as mulheres negras se aprofundam quando nossas experiências se cruzam com outras dimensões de exclusão. Mulheres negras com deficiência, LBTQIAPN+, migrantes, refugiadas ou vivendo em territórios rurais e periféricos encontram sistemas que não reconhecem suas necessidades e, muitas vezes, sequer admitem sua existência. Nessas condições, o acesso à saúde, à educação, à documentação, à mobilidade, à segurança e aos serviços de acolhimento se torna ainda mais limitado. A ausência de acessibilidade, a falta de profissionais preparados e a distância entre políticas públicas e realidades diversas produzem silenciamentos e barreiras que se acumulam e moldam protocolos que simplesmente não nos alcançam.
Para enfrentar esse cenário, é necessário mudar a forma como o Estado formula, executa e monitora suas ações. Isso implica integrar atendimento entre saúde, assistência, segurança e justiça; garantir comunicação acessível e mediação linguística; criar abrigos seguros e preparados para acolher diferentes identidades e corpos; e assegurar que o SUS e demais serviços atuem com uma perspectiva interseccional.
Também é fundamental produzir dados que revelem essas sobreposições de desigualdades, ampliar programas de formação e renda com acessibilidade real e criar mecanismos de participação que incluam mulheres negras diversas na tomada de decisão. A interseccionalidade precisa deixar de ser apenas um conceito e se tornar o eixo que sustenta políticas capazes de alcançar quem sempre foi deixada de lado.
7 – Cultura do cuidado e redes de enfrentamento
O cuidado sempre foi uma tecnologia ancestral das mulheres negras que sustenta famílias e comunidades em meio à falta do Estado. Mas o cuidado que garantimos todos os dias é visto como obrigação natural, não como trabalho que também precisa ser cuidado. A sobrecarga, o cansaço, a responsabilidade permanente e o apoio emocional que oferecemos sem descanso se acumulam em nossos corpos e transbordam em forma de adoecimento. Quando buscamos ajuda, encontramos redes de enfrentamento frágeis, desintegradas e muitas vezes incapazes de escutar sem revitimizar. Em vários territórios, o único cuidado disponível é aquele que nós mesmas construímos.
Transformar essa realidade exige que o cuidado passe a ser compromisso público. As redes de enfrentamento — compostas por serviços como CREAS, CRAS, Casas Abrigo, Centros de Referência da Mulher, Delegacias Especializadas e outros — precisam de equipes qualificadas e presença efetiva onde a vida acontece. É fundamental integrar saúde, assistência social, educação, segurança pública e justiça para que uma mulher que pede ajuda não precise recontar sua dor a cada porta que se abre. Protocolos unificados de acolhimento, com escuta ativa, abordagem humanizada e fluxo rápido entre serviços, são essenciais para romper a lógica da revitimização. Da mesma forma, rodas de cuidado, espaços comunitários de escuta e iniciativas conduzidas por mulheres negras devem ser reconhecidas como parte legítima e necessária dessa política. Cuidar de mulheres negras é assumir, como sociedade e como Estado, a responsabilidade coletiva de garantir que sigamos vivas, dignas e amparadas.
8 – Educação antirracista, antissexista e decolonial
Antes mesmo de abrirem os cadernos, meninas negras já encontram um mundo escolar que não espelha seus rostos nem celebra seus caminhos. A ausência de referências e a presença de estereótipos moldam silenciosamente o que lhes é permitido imaginar para si. Meninas e mulheres negras — cis e trans — seguem invisibilizadas por currículos eurocêntricos, materiais didáticos que reforçam estereótipos e práticas pedagógicas que silenciam saberes produzidos fora dos centros de poder. A aplicação fragmentada da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), restrita a atividades pontuais, não enfrenta o racismo cotidiano que atravessa salas de aula, avaliações, expectativas de desempenho e a ausência de representatividade em todas as etapas da vida escolar. Isso produz um ambiente que desestimula a permanência e restringe o acesso a áreas como Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, além de espaços de prestígio nas humanidades.
A educação é um caminho promissor para transformar vidas, ampliar horizontes e romper ciclos de desigualdade. Mas, para isso, precisa reconhecer quem somos e de onde partimos. Essa transformação exige uma Educação para as Relações Étnico-Raciais efetivamente integrada ao Projeto Político-Pedagógico; formação docente antirracista, antissexista e decolonial; revisão de acervos e currículos que valorizem saberes negros e indígenas; programas de permanência para meninas negras nas áreas de ciência e tecnologia; e protocolos claros de enfrentamento ao racismo, sexismo e à LGBTfobia no cotidiano escolar. Também precisamos de mecanismos de governança que incluam estudantes negras na tomada de decisão e de indicadores desagregados por raça, gênero e território para monitorar avanços. Só assim a escola poderá cumprir seu papel de
garantir liberdade, pertencimento e futuro — não como exceção, mas como regra.
9 – Representação política e enfrentamento da violência política
Quando ocupamos espaços historicamente reservados à branquitude, nossa existência se torna, por si só, uma ruptura. E é justamente essa ruptura que desencadeia a violência política de gênero e raça: ataques que tentam nos expulsar da vida pública, questionando nossa legitimidade, nossos saberes e até o direito de estar vivas. Essa violência se expressa em ameaças, campanhas de difamação, hostilidade institucional dentro dos partidos e assédio nas redes, e tem um propósito claro: impedir que transformemos instituições moldadas para nos excluir.
Garantir a participação política das mulheres negras exige ampliar o número de eleitas e também criar condições para que elas permaneçam, decidam e liderem com segurança. É necessário implementar um Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça, com protocolos de proteção para candidatas e mandatas, responsabilização rigorosa de agressores e monitoramento independente dos casos. O financiamento público para candidaturas negras, a formação política com perspectiva feminista e antirracista, e o fortalecimento de redes como coletivos de mandatas, movimentos de mulheres negras e defensorias especializadas são passos essenciais. Ocupar o poder é reescrever o próprio significado de democracia, que precisa ser plural, segura e comprometida com a dignidade das mulheres negras.
10 – Cooperação e solidariedade internacional
A luta das mulheres negras atravessa fronteiras, mas a nossa presença ainda é reduzida nos espaços onde se definem acordos, financiamentos e narrativas globais. Barreiras de idioma, custos de deslocamento, falta de tempo para quem vive as rotinas do cuidado e o subfinanciamento das organizações de base nos mantêm afastadas das decisões que
moldam as políticas que incidem sobre nossas vidas. Quando conseguimos chegar, enfrentamos tokenismo, agendas capturadas e a ideia de que nossa contribuição é consultiva, não deliberativa. As desigualdades que estruturam o Sul Global também se refletem nesses espaços: pouca incidência, baixa transparência e mecanismos que não consideram raça e gênero como dimensões centrais da cooperação.
Para transformar esse cenário, precisamos de políticas externas antirracistas e decoloniais. Isso inclui bolsas para mulheres negras em delegações internacionais; fundos de viagem, tradução e cuidado que viabilizem nossa participação; mecanismos de proteção para defensoras ameaçadas; eixos de raça e gênero nas plataformas multilaterais como BRICS, G77 e Organização dos Estados Americanos. É essencial fortalecer redes transnacionais da diáspora, expandir a cooperação Sul-Sul baseada em justiça e reciprocidade e garantir que organizações de mulheres negras tenham voz e voto em processos de governança global. A solidariedade internacional só é real quando reconhece a história que nos ligou pela
violência — e aposta, agora, na construção coletiva de um futuro compartilhado.
Por que o comitê existe?
O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres por motivo de gênero, e as principais vítimas são mulheres negras (Mapa da Violência 2025, Ministério da Justiça).
O Comitê foi criado para enfrentar esse cenário alarmante, garantindo que as experiências, saberes e demandas das mulheres negras sejam ouvidas e integradas em políticas, práticas e redes de acolhimento.
Além disso, o comitê busca conectar mulheres e organizações, fortalecendo uma rede de enfrentamento à violência de raça e gênero — porque somos mais fortes quando atuamos juntas.
O que o comitê faz?
O Comitê atua como um espaço coletivo, político e acolhedor, com ações voltadas para:
• Ampliar a presença e visibilidade da Marcha das Mulheres Negras 2025 nas pautas de combate à violência de gênero e raça;
• Divulgar formas de acolhimento e apoio a mulheres negras em situação de vulnerabilidade, assegurando que quem precisa de ajuda possa solicitar acolhimento de forma segura e acessível;
• Criar espaços de troca de saberes e experiências, engajando mulheres na luta contra as múltiplas formas de violência que atravessam nossas vidas.
Quem pode participar?
Toda mulher negra que atue, estude, pesquise ou se interesse pela pauta do enfrentamento à violência de raça e gênero pode participar do Comitê — seja da sociedade civil ou de instituições públicas.
Todas são bem-vindas para contribuir com suas experiências e conhecimentos na construção da Marcha e de uma sociedade mais justa e segura para todas nós.
Como surgiu?
O Comitê nasce da compreensão de que a luta contra a violência precisa ser estratégica, coletiva e organizada. Ele se configura como uma frente de atuação para garantir que a Marcha das Mulheres Negras 2025 seja um espaço de debate e incidência sobre as diversas violências que nos atravessam, além de conectar mulheres e organizações que compartilham desse compromisso.
Como se conectar?
Se você é uma mulher negra engajada no enfrentamento à violência de gênero e raça e quer somar forças ao Comitê, preencha nosso formulário de interesse: https://tally.so/r/3E4LYr.
Junte-se a nós! Vamos marchar pelo acolhimento, pela proteção e pela vida das mulheres negras.
Participe do Comitê e fortaleça nossa rede!



