Sobre autodeterminação, imaginação radical e Bem Viver, notas sobre o contexto político-eleitoral em tempos de digitalização

Olhar para o contexto eleitoral de 2026 é reconhecer que o avanço do fundamentalismo e dos grupos ultraconservadores de extrema direita fez do ciberespaço terreno indissociável da disputa política. Uma arena singular, que se popularizou durante os últimos 20 anos no imaginário coletivo, cujos conteúdos têm se tornado determinantes no enquadramento de perspectivas de mundo capazes de alcançar inclusive aqueles que têm acesso limitado ao ambiente digital.

Especialistas de última hora surgem aos montes, com regras e técnicas de comunicação e marketing digital vendidas como infalíveis, impondo a ocupação indiscriminada desse território, muitas vezes hostil e extenuante, sem tempo para amadurecer uma elaboração crítica coletiva. A tarefa política é reduzida a uma corrida pelo domínio de espaços preestabelecidos pelas plataformas hegemônicas de redes sociais, o que demanda produzir mais e mais conteúdo para atender ao algoritmo, ainda a serviço de um modelo de negócios que prospera sobre o ódio, a polarização e a exploração predatória de saberes, corpos e territórios.

Enquanto isso, nas decisões sobre investimentos e políticas digitais eleitas como as apostas da vez, desponta um lugar comum entre progressistas e conservadores. As candidaturas repetem à exaustão um conjunto de promessas apoiadas no vigilantismo. Câmeras de reconhecimento facial e sistemas automatizados renovam o controle biométrico, prática dirigida aos corpos negros desde a escravização e agora oferecida como resposta à fábula do medo em que todos estamos imersos. Anuncia-se ainda que a chegada de data centers de big techs estrangeiras atrairia bilhões de reais ao país, que a juventude “formada em inteligência artificial” alcançaria empregos melhores e que essa tecnologia faria crescer um novo mercado. Essas medidas repousam numa fé quase mágica na inovação como saída para problemas históricos e estruturais, e escondem os custos econômicos, sociais, ambientais e éticos que acompanham o atual modelo de expansão tecnológica.

Os dois campos não se equivalem, e sabemos o que cada um deles significa para as nossas vidas. No entanto, o que os une reside na branquitude cisheteronormativa que se mantém nas lideranças partidárias, alardeando suas estratégias como inevitáveis, tratadas como a última fronteira entre a democracia e o colapso. Ao instrumentalizar a nossa dor e existência, se apropriam da força política de mobilização e criação de mulheres negras. Os problemas estruturais, por sua vez, são decretados como sentenças irreversíveis, as respostas são limitadas a escolhas individuais e as hierarquias de poder permanecem intactas. 

Nós, ciberativistas negras reunidas no Comitê de Tecnologia da Marcha das Mulheres Negras, reivindicamos a imaginação radical que permite ultrapassar os limites do que nos dizem ser possível, pois descendemos daquelas que abriram passagem onde não havia caminho e gestaram a liberdade na luta, com organização e projeto político-social. Recusamos que nossa ação política se esgote na escolha entre reduzir danos e ocupar plataformas hegemônicas, afinal, o mundo nunca esteve dado para nós. Desde as primeiras pessoas sequestradas, foi a imaginação radical que nos fez resistir e inventar modos de viver onde não havia horizonte. Dessa herança partimos para inaugurar novas gramáticas sobre soberania digital, orientadas pela autodeterminação dos povos diante desse universo. Se quem monopoliza os recursos monopoliza também os sonhos, como nos lembra Ruha Benjamin, propomos um marco que nos permita edificar novos alicerces onde a vida caiba em toda a sua inteireza. 

Para nós, o ciberespaço é lugar de disputa e autodefinição

Toda tecnologia carrega uma visão de mundo e tende a preservar as assimetrias de poder e os interesses de quem a projeta e financia. O racismo científico dos séculos XVIII e XIX buscou fundamento biológico para a estratificação racial, e hoje o mesmo movimento ganha forma em modelos preditivos que apontam jovens negros e periféricos como prováveis suspeitos e criminosos. As elites do Vale do Silício vendem utopias pós-humanas. O transumanismo, crença de que sistemas automatizados devem libertar a espécie dos limites do corpo até a imortalidade digital, ressuscita um ideário descendente do eugenismo. Tudo aquilo que nos torna humanos, como emoção, imprecisão e a nossa espetacular capacidade de errar, mola propulsora de aprendizados, viram versões do ser a serem atualizadas. Tais ficções prometem salvar o futuro, elencando zonas de sacrifício nas antigas colônias para conseguir alcançar esses feitos. A engrenagem, velha conhecida, se baseia na extração de recursos naturais e humanos, cria os problemas, as soluções e perpetua o empreendimento da sujeição de corpos e territórios dissidentes. 

A encruzilhada na qual nos encontramos é também uma disputa de utopias, e nela recusamos a resignação e o pragmatismo estreito a que estamos permanentemente submetidos a cada pleito. 

A ancestralidade como tecnologia de sobrevivência, criação e reinvenção do futuro

O quilombo, categoria política e existencial de autodeterminação, nos deu o mapa para a nossa organização, proteção e autonomia. Sem depender do reconhecimento do Estado, terreiros, irmandades, associações de bairro, redes de mulheres e coletivos de comunicação seguiram renovando esse pacto por meio da tecnologia social de cuidado e permanência que nos constitui.

Em 2025, a Marcha das Mulheres Negras reeditou a máxima de que as soluções das quais precisamos virão de nós, como sempre vieram. Das geografias da abolição de Ruth Gilmore, tomamos a ideia de que a liberdade é um lugar e que no Bem Viver, ela ganha chão. A soberania digital que reivindicamos é essa liberdade, a partir da nossa autonomia, também no ciberespaço. 

Para além das plataformas hegemônicas de redes sociais

Propomos abrir uma arena pública de reflexão e incidência em torno de cinco eixos, que atualizam a declaração de 2025 com o que aprendemos nesta conjuntura. Resistiremos, presentes nas redes, enquanto construímos nosso próprio projeto de futuro, cientes de que nem todo chamado nos protege. Antes de cada mobilização, pensaremos juntas, porque quando a exposição cobra seu preço, são nossos corpos que guardam as marcas. 

  1. Infraestrutura sob controle comunitário

Nenhum território é soberano sobre aquilo que não pode decidir, manter ou desconectar. Defendemos investimento público em redes autônomas de internet, servidores e plataformas geridos pela sociedade civil, com conectividade significativa nas periferias, nos quilombos e nas aldeias. Todo data center ou parque de energia deve passar por consulta prévia, livre e informada às populações afetadas e por avaliação pública de seu impacto sobre os direitos socioterritoriais e, no limite dos prejuízos, ter a implementação suspensa. 

  1. Dados como bem coletivo

A proteção de dados pessoais é um direito fundamental reconhecido na Constituição Cidadã e que tem como base a autodeterminação de cada pessoa sobre as próprias informações. Queremos levar essa ideia ao plano coletivo, assegurando o direito das comunidades de decidir sobre registros que descrevem seus corpos, famílias e territórios. Isso significa banir o reconhecimento facial na segurança pública, interromper a expansão de sistemas de vigilância, abrir à auditoria social todo e qualquer algoritmo que orienta políticas públicas e impacta na relação entre Estado e os nossos dados. 

  1. Cuidado e autodefesa

Mulheres negras defensoras de direitos socioterritoriais são alvo de perseguições, ameaças e campanhas de desinformação. Autodefesa, para nós, significa segurança e cuidado digital de ativistas, comunicadoras e lideranças comunitárias, em que seja possível construir protocolos coletivos de proteção e garantir o direito de reduzir o consumo adoecedor de informação. Fazem parte da autodefesa estratégias econômicas e comunitárias para os períodos em que a fome e o desemprego crescem, assim como o cuidado com a saúde mental e física de quem sempre sustentou a luta e precisa retomar o fôlego para continuar. 

  1. Educação popular digital

A opacidade das infraestruturas digitais não é acidental e está a serviço de um projeto transnacional de expropriação. Para muita gente, mesmo entre quem tem acesso à informação, a nuvem ainda é uma nuvem. A geografia dos data centers permanece invisível porque a infraestrutura digital é apresentada como imaterial. Essa abstração oculta que o sistema se sustenta na exploração concreta de recursos naturais, como minérios e água, além de energia e terra, deslocam os custos socioambientais para comunidades e ecossistemas frequentemente distantes dos centros de consumo digital. Por isso, defendemos uma pedagogia digital crítica, em diálogo com a educação popular e com os códigos, as linguagens e as estéticas produzidas no cotidiano negro e periférico. Seu objetivo é alcançar organizações que ainda não abordam o tema e democratizar o conhecimento sobre o funcionamento das infraestruturas digitais — para além do uso de ferramentas e plataformas privadas e comerciais. 

Somos autoras, e não meras usuárias, clientes ou consumidoras de serviços. 

  1. Participação e controle cidadão:

Algoritmos de inteligência artificial e moderação de conteúdo impactam hoje na tomada de decisões sobre direitos fundamentais. Defendemos que os códigos que ditam o funcionamento das tecnologias digitais sejam tornados públicos, transparentes, explicáveis e submetidos a auditoria cidadã sobre seu funcionamento e reprodução de vieses e discriminações.

  1. Governança, memória e reparação

Seguiremos ocupando os espaços de governança, numa perspectiva internacionalista, ao lado de organizações do Sul Global. Reafirmamos ainda os compromissos da declaração de 2025 por reparação, Bem Viver e pela construção de um porvir afrodiásporico. 

Além dos pés e do chão, por tudo que a mão ainda não toca*

Seja qual for o resultado de 25 de outubro, a disputa sobre tecnologia não termina na urna. A supremacia branca continuará organizada, apoiada num projeto transnacional de dominação que se estrutura nas plataformas e avança sobre os territórios. Nossa pergunta é a mesma: como converter a presença das mulheres negras nos momentos decisivos, em poder de fato, e como cuidar de nós enquanto lutamos? Fomos nós que pautamos raça e gênero nas tecnologias digitais quando quase ninguém o fazia, e sustentaremos a nossa posição na linha de frente.

Convocamos movimentos sociais, coletivos de comunicação, organizações de direitos digitais, pesquisadoras, trabalhadoras plataformizadas, educadoras, juventudes, comunidades de terreiro e povos tradicionais, bem como a população LBTQIAPN+ e mandatos comprometidos com o enfrentamento ao racismo e ao sexismo a refundar a agenda digital do país a partir das elaborações das margens.

Que a próxima legislatura saiba que seguiremos em marcha pelo banimento do reconhecimento facial na segurança pública, pela soberania popular e garantia da nossa presença como agentes e autoras das tecnologias digitais.

Então, lutemos pela regulação das plataformas e da inteligência artificial, indo muito além. Soberania digital não se compra com data center público, nem se instala em forma de dispositivos vigilantistas racializados.

Reivindicamos a autoria do nosso futuro, e chamamos o país a imaginá-lo conosco.

* Este subtítulo pede licença a Dona Ivone Lara, que em “A Força da Imaginação”já cantava e sambava o futuro. Nossos passos vêm de longe, e os dela estão entre eles. 

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